5# COMPORTAMENTO 30.4.14

     5#1 A CLASSE MDIA SE RENDE AO EMPREGO PBLICO
     5#2 O QUE FAZER COM OS HAITIANOS?
     5#3 A BRIGA PELA FORTUNA MAKSOUD
     5#4 CIGARRO ELETRNICO NA BERLINDA
     5#5 POR QUE O AUTOMOBILISMO BRASILEIRO NO  O MESMO DEPOIS DE SENNA

5#1 A CLASSE MDIA SE RENDE AO EMPREGO PBLICO
Antes preferidos por mais velhos e por profissionais em final de carreira, hoje os concursos so disputados, em sua maioria, por jovens de at 35 anos, com boa formao acadmica, que buscam estabilidade e bons salrios
Camila Brandalise (camila@istoe.com.br)

Salrios competitivos, estabilidade, plano de carreira, timos benefcios e aposentadoria garantida. No  de hoje que o servio pblico atrai profissionais graduados, seduzidos por todos esses atrativos e cansados da insegurana do mercado de trabalho. A novidade  que o setor deixou de ser apenas o plano B de homens e mulheres prximos da meia-idade, vidos por garantir uma velhice sem sobressaltos, para se tornar a primeira opo de jovens de at 35 anos, muitos ainda cursando a universidade. Eles formam um grupo grande entre os 12 milhes de brasileiros que esto se preparando neste momento para conseguir uma das 130 mil vagas previstas para 2014  em 2015 sero mais 180 mil. Destes, 90% vm da classe mdia, segundo Francisco Fontenele, especialista em concursos pblicos. Para aquecer ainda mais essa indstria, que movimenta R$ 30 bilhes por ano, 2014 est recheado de boas oportunidades na rea, com salrios que podem ultrapassar R$ 20 mil. No topo da lista de desejos dos concurseiros esto as provas para agente da Polcia Federal, tcnico e analista do Banco Central e tcnico e analista do Ministrio Pblico da Unio. Para se ter uma ideia, esse ltimo exame registrou 69 mil inscritos, que concorreram a 263 vagas na ltima edio, em 2013, com uma relao candidato/vaga de 260.

Dayana Alves Silva Lopes, 25 anos,  um exemplo do novo perfil de candidato. Formada em administrao de empresas, ela trabalhou quatro anos na rea. Mas demisses, promoes que no aconteceram e outras frustraes fizeram a jovem mudar completamente o rumo de sua trajetria profissional. Desde setembro de 2013, a administradora acorda cedo e dedica oito horas do seu dia para estudar para concursos pblicos. Seu plano j est traado. Dayana vai prestar as prximas provas para escrevente e oficial de Justia do Tribunal de Justia de So Paulo, que exigem nvel mdio e pagam, respectivamente, R$ 4.190,37 e R$ 4.921. Vou estudar at passar, afirma. Mas a administradora no quer parar na primeira aprovao. Empossada, ela deve comear a estudar para outra prova, repetindo um hbito comum entre aqueles que entram no setor pblico. Tentarei um concurso para nvel superior, mais difcil ainda, por causa da concorrncia.

A indstria dos concursos  um mercado bilionrio, que movimenta cerca de R$ 30 bilhes por ano

O servio pblico se torna ainda mais atraente em tempos de vulnerabilidade econmica. Como vivemos momentos de altos e baixos, se o lucro e a produo caem no setor privado, as vagas fecham e os salrios diminuem. Isso no acontece no setor pblico, diz Ernani Pimentel, um dos fundadores da Associao Nacional de Proteo e Apoio aos Concursos (Anpac). Por isso acredito que a procura tem aumentado tanto. A mesma percepo permeou a deciso de Dayana de entrar no setor. No quero chegar a uma certa idade em um cargo alto e ser demitida para que no meu lugar coloquem algum mais novo e com um salrio menor do que o meu. E  isso o que vejo acontecer ao meu redor, diz.

LEIS - Especialista em concursos, Francisco Fontenele apoia a Lei Geral dos Concursos, em discusso na Cmara, para que todos os candidatos tenham direitos iguais

Os valores dos salrios, claro, tambm atraem. A remunerao pode ir desde o salrio mnimo at uma mdia de R$ 15 mil, como  o caso da vaga para fiscal da Receita Federal, e chegar a R$ 23 mil, nos cargos do Poder Judicirio. Mas h um grande nmero de candidatos que tambm tm interesse pela funo em si, contrariando o esteretipo do servidor pblico que quer um salrio razovel para ocupar um cargo que no lhe exija muito esforo. O advogado Maurcio de Farias Castro, 25 anos, est nesse time. Formado desde 2011, ele estuda para entrar no Ministrio Pblico. Desde a faculdade tenho esse objetivo, pois  uma instituio que admiro muito, diz. A rotina de Castro  muito rgida. Trabalho no meu escritrio das 7h45 s 17h30. At 18h40, estudo antes de ir para o curso preparatrio. Tenho aula por quatro horas e, quando volto para casa, estudo de novo at a 1h. O advogado teve ainda mais certeza do que queria quando sofreu um baque na famlia. Sua me foi assassinada e at hoje no se sabe quem foi o autor do crime nem h qualquer resposta sobre o caso, que foi arquivado pela polcia.

PREPARAO - Aline Dias vai se formar em direito em 2015, mas j est estudando para prestar concurso pblico. "A concorrncia  muito grande"

Apesar de a mentalidade em relao ao servidor pblico estar comeando a mudar, ainda h um longo caminho a ser percorrido para padronizar legalmente a execuo das provas. Estima-se que, anualmente, cerca de 20% delas apresentem problemas, que vo desde questes sem resposta a inconstitucionalidades nos editais.  fundamental que existam regras claras, afirma o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), relator do substitutivo ao Projeto de Lei 74/2010, aprovado em julho de 2013 no Senado, que prev a regulamentao de algumas normas para aplicao de concursos em mbito federal. Entre outras mudanas, est previsto o fim dos exames feitos somente para o chamado cadastro de reserva, aqueles em que existe a possibilidade de ningum ser convocado. Essa prtica parece ter virado uma mquina de fazer dinheiro, diz Rollemberg. O texto tambm prev que os editais sejam lanados com antecedncia mnima de 90 dias, as inscries estejam disponveis na internet, a taxa de inscrio seja, no mximo, de 3% do valor da remunerao inicial do cargo e que todos os resultados das provas sejam objetiva e tecnicamente fundamentados, entre outras mudanas. Na Cmara dos Deputados, para onde seguiu o projeto, o relator da Lei Geral dos Concursos  o deputado Paes Landim (PTB-PI). A expectativa  que a matria seja aprovada na Casa no comeo do segundo semestre para depois retornar ao Senado.

DIREITOS - Apesar de aprovado em primeiro lugar em um concurso, Paulo Victor Pereira no foi convocado e agora briga na Justia para ocupar a vaga

A legislao  um passo fundamental para firmar a credibilidade de alguns concursos, questionada justamente pela falta de transparncia. J vi situaes em que a banca abre um perodo de inscrio muito curto; assim, aqueles que j teriam sido escolhidos para a vaga saberiam dos concursos antes e poderiam se preparar, diz Ernani Pimentel, da Anpac. H tambm denncias de bancas que incluem novos contedos a poucos dias do exame, fazendo com que muitos cheguem despreparados, enquanto outros recebem a informao antes da divulgao da mudana. Espera-se que, aps aprovada, a Lei Geral dos Concursos possa nortear nova legislao tambm nos Estados e municpios brasileiros. Para dotarmos a mquina pblica com bons servidores  preciso seguir o princpio da isonomia, possibilitando oferta igual para todos, afirma Francisco Fontenele, que tambm  diretor pedaggico da rede de cursos preparatrios LFG. Muitos profissionais de alto nvel saem prejudicados pela falta de normatizao. Para Alessandro Dantas, coautor do livro Concurso Pblico  Direitos Fundamentais dos Candidatos com Fontele e consultor jurdico da Associao Nacional de Defesa e Apoio ao Concurseiro (Andacon), no  s porque um item consta no edital que ele  vlido. H muita ilegalidade. O concurseiro precisa buscar a lei existente ao notar qualquer injustia (leia quadro na pg. 58).

Foi o que fez Paulo Victor Mendes Pereira, 27 anos. Em 2010, ele foi aprovado em primeiro lugar como analista de arquivologia em Porto Velho (RO). Mesmo sabendo que era o caso de cadastro de reserva, Pereira ficou animado. Se chamassem algum, seria ele. Mas dois anos se passaram e nenhuma vaga foi aberta. Decidi entrar na Justia com um grupo de 50 pessoas, todas candidatos aprovados em primeiro lugar no mesmo concurso, s que para postos diferentes. At agora, no h sinal do to sonhado cargo, que na poca tinha remunerao de R$ 7 mil. Cheguei a entrar em contato com a Procuradoria em Rondnia. Eles solicitaram minha vaga, mas, mesmo assim, no fui chamado. Decepcionado, ele no pensa em prestar outro concurso to cedo.  frustrante. Mais otimista, Anderson Carlos dos Santos, 29 anos, ainda espera ser convocado na segunda chamada, embora nem a lista da primeira tenha sado, para uma cadeira no Banco do Brasil, cujo resultado foi divulgado no comeo deste ano. Estudei num curso de trs meses, mas fiz a prova antes mesmo de conclu-lo, diz Santos, que tambm  msico e pretende manter as carreiras paralelamente.

Entre as mudanas da nova lei de concursos est previsto o fim do cadastro de reserva

Se para alguns alunos um curso preparatrio de trs meses  suficiente, para a maioria alcanar a vaga pretendida pode exigir muito mais tempo e dedicao. Por isso, para as provas mais concorridas, a recomendao dos especialistas  comear a se preparar o quanto antes. No geral, e principalmente para os cargos que exigem formao em direito, o tempo de estudo para passar em um concurso vai de dois a trs anos. Com isso em mente, muitos jovens universitrios decidem comear a estudar antes mesmo da formatura. A estudante Aline da Silva Dias, 21 anos, concluir a graduao em direito em 2015, mas j acompanha aulas do curso preparatrio. Quero seguir carreira na Promotoria, diz. Aline chegou a tentar um cargo de assistente administrativa no Banco Central no fim do ano passado, mas no foi aprovada. No  fcil assim.  preciso conhecer alguns macetes das provas, diz.

DEDICAO - H sete meses, Dayana Lopes deixou o cargo de assistente administrativa em uma empresa privada para estudar para concursos pblicos

Para os concursos que exigem somente o nvel mdio, a procura tem comeado ainda mais cedo. Adolescentes prestes a entrar na universidade ou no incio do curso j tentam um posto no servio pblico para garantir o emprego. Andreluci de Oliveira Barbosa Figueiredo, 24 anos,  hoje oficial administrativa da Procuradoria-Geral do Estado de So Paulo, mas se tornou servidora pblica mais cedo, aos 19, quando ainda estudava direito. Na poca, ela conseguiu uma vaga de inspetora de alunos em uma escola. Depois, prestou outro concurso e entrou em um estgio numa procuradoria. Andreluci tem certeza de que essa fase foi essencial para definir seu atual sonho de se tornar procuradora. Ainda no h edital aberto, mas j comecei a pegar firme nos estudos para me preparar, diz. Dedicao diria  imprescindvel. E, no meu caso, estudar em casa no d muito certo, preciso de uma rotina de cursinho. No atual cargo, que exige nvel mdio, a jovem tem remunerao de R$ 1,5 mil. Quando atingir o objetivo, poder ganhar cerca de dez vezes mais.

CARREIRA -  Servidora pblica desde os 19 anos, Andreluci Figueiredo, hoje com 24, sonha em se tornar procuradora. "Dedicao diria  imprescindvel"

Com uma maior oferta de vagas e mais interessados a cada ano, a rea dos concursos pblicos forma um mercado bilionrio, envolvendo publicaes especficas, cursos preparatrios, livros com dicas e jornais direcionados. Calcula-se que o gasto anual dos candidatos em fase de preparao, incluindo material didtico, inscries e mensalidades de cursos, seja de R$ 8 mil a R$ 10 mil. Dependendo do cargo, esse investimento se torna imprescindvel, em razo do nmero de candidatos preparados para enfrentar as provas. E eles esto por dentro no s do contedo, mas tambm dos macetes para se dar bem nos testes, em um esquema parecido com o das provas do vestibular. Dou aulas h 20 anos e nunca vi um nvel de preparao to alto como o de hoje em dia, afirma o professor Julio Cesar Hidalgo, da Central de Concursos. E a cada novo edital o nmero de interessados s cresce. Brinco que quando abre um precisamos colocar carteira beliche, de tanta gente nova que aparece.

Para os especialistas, as provas precisam ser mais transparentes e os editais devem ser lanados com antecedncia mnima de 90 dias

Um dos problemas dos novos concurseiros, para Hidalgo,  no ter um objetivo especfico. No d para pular de prova em prova s porque abriu um edital.  preciso mirar em um cargo e estudar para ele, diz. Para quem pensa em ser auditor fiscal da Receita Federal, por exemplo, um dos postos mais visados do servio pblico,  necessrio comear a se preparar o quanto antes, mesmo quando no h um novo edital. Essa  uma das regras de ouro dos concurseiros. Outra orientao dos especialistas na rea  entender que o servio pblico, pelo menos nas vagas com salrios de dois dgitos,  um projeto de mdio a longo prazo. Por isso,  essencial ter pacincia at conseguir alcanar o posto e o holerite almejados. E de nada adianta seguir as duas orientaes se no houver disciplina nos estudos. Fazendo cursinho ou estudando sozinho,  preciso estabelecer uma rotina fixa de dedicao, diz Hidalgo. Os milhes de pessoas que brigam pela to sonhada carreira pblica, e aquelas que j conseguiram entrar nela, garantem que seguir essas orientaes vale a pena.

Para entrar num concurso muito disputado, cujo salrio ultrapassa os dois dgitos, o tempo de preparao ultrapassa dois anos


5#2 O QUE FAZER COM OS HAITIANOS?
Governador do Acre manda para So Paulo 500 refugiados e mostra que o Brasil, alm de fazer vistas grossas  chegada de milhares de imigrantes, no possui uma poltica definida de ajuda humanitria
Fabola Perez (fabiola.perez@istoe.com.br) e Raul Montenegro (raul.montenegro@istoe.com.br)

A crise poltica instalada entre os governos do Acre e de So Paulo desde que o primeiro comeou a despachar, com o auxlio do governo federal, centenas de haitianos que estavam no abrigo da cidade de Brasilia para a capital paulista mostrou como o Pas est despreparado para lidar com as questes humanitrias. A poltica do governo para haitianos  improvisada, diz Camila Asano, da ONG Conectas, que acompanha a situao dos imigrantes desde o incio. Os refugiados comearam a chegar a So Paulo no dia 12 de abril, mas foi na quinta-feira 24 que o incmodo causado pela transferncia veio  tona. A secretria de Justia do Estado de So Paulo, Eloisa Arruda, classificou como irresponsvel a conduta de facilitar a vinda dos haitianos, enquanto o governador acreano, Tio Viana (PT), acusou a elite paulista de ser preconceituosa. Vale lembrar que desde que o governo federal decidiu atuar em parceria com o Haiti, liderando as tropas de paz na localidade, abriram-se as portas para os seus cidados no Pas.

ABANDONO - Haitianos recm-chegados  casa Misso Paz, em So Paulo, sofrem com a falta de colches e alimentos

H alguns anos, o fluxo de pessoas vindas do Haiti disparou. Segundo a Misso Paz, entidade ligada  Igreja Catlica que acolhe refugiados num abrigo no centro da capital paulista, o nmero de haitianos recebidos pela instituio subiu de 80 em 2011 para 2,6 mil no ano passado. Transferidos de Brasilia, onde estavam 1,7 mil refugiados, vieram 500 deles, desde meados de abril. Eles dormem sobre colches no cho e dizem sentir frio e fome. Apesar de a instituio afirmar que concede uma refeio diria, os imigrantes contam que no tm comida todos os dias. No conseguimos dar conta, diz o padre Paolo Parise, responsvel pelo abrigo. Alguns j cruzaram a fronteira sem nada. No Peru roubaram tudo o que eu tinha, afirma Pierre Duckenson, 33 anos. Na semana passada, a prefeitura e o governo do Estado comearam a fornecer colches e alimentos no local onde os haitianos esto alojados. O secretrio municipal de Direitos Humanos, Rogrio Sottili, afirmou, porm, que por enquanto no h planos para a construo de um novo abrigo.

PERSPECTIVA - Imigrantes fazem fila para regularizar documentos e tirar carteira de trabalho

No Acre, a avaliao  que o Estado no pode prender os imigrantes. Eles podem escolher o prprio destino e a preferncia  por So Paulo e pelo Sul, afirma o secretrio de Direitos Humanos acreano, Nilson Mouro. Oferecemos a ajuda humanitria dentro das nossas condies, mas o futuro depende da poltica do governo federal. O coordenador do abrigo em Brasilia, Damio Borges, afirma que, entre dez haitianos que chega l, seis saem do Estado. Recm-chegado a So Paulo, Enoil Vital, 40 anos, disse que o prprio Damio o aconselhou a sair do Acre. Eles vm de um pas em dificuldades,  natural que queiram ir para os grandes centros, justifica o coordenador.

Especialistas afirmam que a situao dos haitianos, em ltima instncia,  responsabilidade do governo federal, que, no entanto, ainda passa ao largo das acusaes. O Estado brasileiro auxilia especialmente o governo do Acre com recursos para sade e assistncia social, afirma a assessoria do Ministrio da Justia. A pasta culpa a enchente que atingiu o Acre pela deciso de enviar os haitianos para So Paulo. Apesar de ser acusado de omisso na coordenao do problema, o governo federal diz que diversos ministrios atuam para minimizar os danos, repassando verbas para alimentao e sade, por exemplo.

H oito meses, a ONG Conectas denunciou as condies sub-humanas flagradas no abrigo de Brasilia  Organizao dos Estados Americanos (OEA). Os haitianos so vtimas de violaes de direitos, sofrem abusos policiais no caminho e ficam nas mos dos coiotes  pessoas que cobram altas taxas para levar os imigrantes at as regies de fronteira, afirma Camila, da Conectas. Segundo ela, a denncia dessa situao abalou a imagem do Brasil, que sempre foi visto como um pas crtico de injustias nas polticas migratrias, diz. Os prprios brasileiros, inclusive, j sofreram como imigrantes, principalmente em pases da Europa. Para a especialista,  preciso aumentar o nmero de vistos humanitrios, facilitar a chegada deles ao Brasil e, a longo prazo, integr-los  nossa sociedade.


5#3 A BRIGA PELA FORTUNA MAKSOUD
Acusaes de maus- tratos com registros policiais, uso abusivo de medicamentos e tentativas de interdio marcam a incrvel disputa pela herana do fundador de um dos hotis mais emblemticos da capital paulista
Fabola Perez (fabiola.perez@istoe.com.br)

O empresrio Henry Maksoud gostava de ter controle absoluto sobre a vida pessoal e os negcios. No  toa, ergueu um dos mais imponentes hotis do Pas, o Maksoud Plaza, e se tornou um empreendedor de sucesso entre os membros da elite paulistana. Com o passar dos anos, no entanto, a administrao familiar comeou a revelar problemas e os cifres de seu patrimnio diminuram. A manuteno da harmonia familiar tambm fugiu de seu controle quando, em 1999, o primognito, Roberto Flix, abandonou o cargo de diretor do hotel, o mais glamouroso de So Paulo na dcada de 1980. Quinze anos depois, distante dos filhos e diagnosticado com cncer de pulmo, Henry Maksoud dividia suas horas entre um leito do hospital Albert Einsten, em So Paulo, e a cama de seu quarto em uma manso de 17 mil metros quadrados na Chcara Flora, bairro nobre na zona sul da cidade, onde vivia com a segunda mulher, Georgina Clia Bizerra. Com a morte do empresrio aos 85 anos, na quinta-feira 17, deu-se incio a um processo de disputa pela herana, estimada em R$ 500 milhes, acusaes e conflitos que racharam de vez a famlia. De um lado, ficaram a mulher, Georgina, e o neto Henry Maksoud; de outro, os filhos Roberto, pai de Henry, e Cludio.

MEMRIA - O empresrio Henry Maksoud e sua criao, o hotel Maksoud Plaza, um cone da capital paulista

A briga teria comeado muito antes da morte do patriarca. Em janeiro deste ano, os filhos pediram a interdio judicial do pai, sob o argumento de que o empresrio apresentava sintomas de demncia e no teria condies de administrar seus bens. De acordo com Roberto, as primeiras desconfianas surgiram em janeiro de 2013, quando ele ligou para o pai, de Orlando, nos Estados Unidos, onde vivia. Georgina no queria me deixar falar com ele, mas insisti, diz. Quando conversamos, notei que ele estava esquecendo certas coisas, diz. Do outro lado, Georgina e Henry negam que Maksoud tenha ficado senil por causa da idade. Meu marido faleceu em razo de um grave cncer descoberto meses antes. Evidente que a sua sade fsica no era a melhor. Mas a sua sade mental permaneceu intacta at o dia de seu falecimento, afirma a viva.  Segundo Mrcio Casado, advogado de Georgina, do neto e do prprio empresrio, o requerimento de interdio foi rejeitado pelo Ministrio Pblico por falta de provas. Um homem como Maksoud no poderia ter sintomas de demncia, ele tinha todas as condies de tomar as prprias decises, diz.

BRIGA - Claudio Maksoud tentou interditar o pai no incio do ano, com o irmo Roberto, mas no conseguiu

Marcio Casado alega que os filhos estavam distantes do pai. J o neto tinha uma proximidade natural, uma vez que trabalhava com o av na direo do hotel. Roberto justifica que estava distante de Henry Maksoud porque, alm de morar em outro pas, era impedido de falar com ele. Com a morte do empresrio, comea o processo da abertura do inventrio. O presidente da Comisso de Direito de Famlia e Sucesses da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), Nelson Sussumu Shikicima, explica que, em casos de sucesso envolvendo grandes empresas, espera-se que o dono do patrimnio deixe um planejamento sucessrio, que pode vir no formato de um testamento.  comum que a pessoa se preocupe em documentar a quem ser destinada a empresa e o restante dos bens, diz. Shikicima observa ainda que os filhos so os herdeiros necessrios e que a nica maneira de no terem prioridade seria diante de um testamento. Casado no confirmou a existncia ou no do documento. Um testamento poderia modificar o rumo dos fatos, caso comprovasse a preferncia de Maksoud pelo neto ou pela esposa, em vez dos filhos, diz Shikicima.

Com a abertura do inventrio, o documento poder ser apresentado e tambm impugnado pelos familiares. Para o advogado de Roberto, Luiz Roselli Neto, scio do escritrio Novaes e Roselli Advogados,  preciso comprovar sua legitimidade. A mulher cerceava o direito de os filhos visitarem o pai e h denncias de funcionrios que testemunharam maus-tratos contra Maksoud na casa em que viviam, diz. Os mesmos empregados afirmam que Georgina ministrava altas doses de tranquilizantes no marido. Como uma pessoa enclausurada em um quarto, sob efeito de remdios, poderia assinar um documento confivel?, questiona. Roberto rebate as afirmaes de que estaria disputando a herana do pai. Se estivesse brigando por dinheiro, no teria deixado de trabalhar no hotel por vontade prpria h 15 anos, diz. A denncia de agresso contra Maksoud foi registrada no Ministrio Pblico de So Paulo por uma antiga funcionria da casa da Chcara Flora e ouvida pelo promotor Delton Pastore em maro deste ano. Georgina afirma que, uma semana antes do falecimento do marido, cinco viaturas da polcia militar e duas viaturas de resgate foram  sua casa. Eles falaram que teria havido uma denncia annima de maus-tratos a um idoso, diz. Eles viram meu marido tomando caf, cercado de enfermeiros e funcionrios da casa. Os policiais pediram desculpas pelo incmodo e foram embora. Aps a morte do empresrio, o caso foi arquivado. Isto conversou por telefone com a ex-funcionria que registrou a queixa e ela confirmou as denncias.

O prximo passo para o processo que corre em segredo de Justia  a escolha da pessoa responsvel pelo patrimnio de Henry Maksoud. Normalmente, o inventariante  o cnjuge, diz Shikicima, da OAB-SP. Mas se houver testamento, a pessoa pode estar indicada no documento. O advogado do empresrio, Casado, afirma que a inteno de Maksoud era dar continuidade s empresas que fundou. Ele tinha uma vontade e alguns herdeiros no se conformam com isso. O neto Henry Maksoud diz que a inteno do av sempre foi dar andamento a seus empreendimentos. As pessoas envolvidas na sua sucesso devero ter respeito por sua vontade declarada em vida, afirma o rapaz, que diz ter um relacionamento cordial com o pai, Roberto, apesar de disputar a herana com ele. Temos perfis muito diferentes profissionalmente.

RACHA - Acima, a viva Georgina e o neto Henry, que ficaram ao lado de Maksoud at sua morte. Abaixo o filho Roberto, pai de Henry, que acusa a madrasta de dopar e maltratar o pai, para ter controle sobre sua fortuna, estimada em R$ 500 milhes

Henry Maksoud se divorciou da primeira mulher, Ilde, me de Roberto e Claudio, em 1979. Dois anos depois, teria assumido o relacionamento com a ento manicure do hotel, Georgina. Em 2011, eles se casaram sob regime de separao total de bens. Segundo Shikicima, da OAB-SP, a viva poder entrar na Justia com uma ao de reconhecimento de unio estvel e, dependendo do resultado, concorrer em iguais condies com os filhos.


5#4 CIGARRO ELETRNICO NA BERLINDA
Estudo conclui que o dispositivo no ajuda os fumantes a largarem o vcio e rgos reguladores de sade pretendem endurecer as regras sobre ele
Raul Montenegro (raul.montenegro@istoe.com.br)

Moda no Brasil e no Exterior, o cigarro eletrnico tem atrado adeptos com a promessa de ajudar fumantes a largarem o vcio. No dispositivo, que lembra o modelo tradicional, uma bateria esquenta um lquido que pode ou no conter nicotina, produzindo o vapor que ser tragado pelo usurio. A fama de aliado, porm, pode estar com os dias contados. Um estudo divulgado recentemente na publicao mdica Jama Pediatrics concluiu que o uso do aparelho pode atrapalhar na recuperao dos dependentes da nicotina. Segundo a pesquisa, que acompanhou 949 pessoas durante um ano, 10,2% dos fumantes de e-cigs, como tambm so conhecidos, conseguiram deixar o vcio. Entre os que no usam o dispositivo, o ndice foi maior: 13,8%. Na quinta-feira 24, a agncia reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) deu outro golpe nessa indstria ao propor ampliar aos cigarros eletrnicos as regras existentes para outros produtos de tabaco  como proibio da venda para menores de idade e obrigatoriedade de aviso sobre danos  sade. A Organizao Mundial da Sade (OMS) planeja tomar medida parecida. Isso significa que os signatrios de uma conveno para o controle do fumo devero aumentar impostos e restringir propagandas dos e-cigs. A maioria das naes, incluindo o Brasil, assinou o documento.

ESTRATGIA - Juliana Ali adotou os e-cigs h seis meses, pois acha que eles so menos nocivos que os tradicionais

No Pas a comercializao  proibida. Isso faz com que muitos entusiastas, como a blogueira Juliana Ali, 32 anos, busquem a engenhoca no Exterior. Seus preferidos custam US$ 20. H seis meses, Juliana adotou o dispositivo para largar o cigarro tradicional.  bvio que o eletrnico tambm faz mal, mas muito menos que o normal, diz.  Especialista em dependncia de drogas pela Universidade Federal de So Paulo (Unifesp), Ana Ceclia Marques afirma que o fato de o produto se parecer muito com o cigarro comum pode fazer com que dependentes no consigam largar rotinas associadas ao vcio. O tratamento adequado  psicolgico, biolgico e social, diz. De acordo com Jaqueline Issa, diretora do Programa de Tratamento de Tabagismo do Instituto do Corao (Incor), com a onda de regulamentaes ficar mais fcil promover um uso mais seguro em casos especiais. Se o cigarro eletrnico possui menos substncias qumicas que o tradicional, fum-lo poderia ser uma vantagem para um paciente fazendo quimioterapia que se recusa a parar de fumar, por exemplo.


5#5 POR QUE O AUTOMOBILISMO BRASILEIRO NO  O MESMO DEPOIS DE SENNA
Vinte anos aps a morte do dolo, o esporte se apequena no Pas por causa da falta de apoio da iniciativa privada e da ausncia de categorias de base e de programas de incentivo a novos talentos
Rodrigo Cardoso (rcardoso@istoe.com.br)

Presidente e CEO da Formula One Management, o britnico Bernie Ecclestone afirmou, h cinco anos, que a morte do brasileiro Ayrton Senna, em 1994, durante o Grande Prmio de San Marino, foi benfica para a Frmula 1. Para o dirigente, o acidente que abalou o mundo trouxe maior visibilidade e publicidade  modalidade. Ele era popular e muita gente que no conhecia soube da existncia da Frmula 1, disse. No Brasil, porm, o vcuo deixado pela ausncia de Senna  a quinta-feira 1 de maio marca os 20 anos da morte dele  fez o automobilismo engatar a r. Estima-se que existem, hoje, cerca de 20 pilotos correndo fora do Pas, dez a menos do que h uma dcada. Foi nessa poca, meados dos anos 2000, que a incubadora dos pilotos nacionais sofreu o maior revs. Sem o apoio de montadoras como Chevrolet, Ford e Renault, que patrocinavam categorias de frmula, criou-se um hiato entre o kart e a Frmula 3 Brasil, as duas nicas de formao de pilotos que restaram, tecnicamente distantes uma da outra. Se a gerao de pilotos, hoje,  menor em quantidade e menos talentosa,  por falta de investimento nas categorias de base, diz Reginaldo Leme, jornalista especializado em esportes a motor.

Com a ausncia de estrutura no Pas, brasileiros passaram a fazer o be-a-b da pilotagem no Exterior. Ainda adolescentes, optam por uma dura vida l fora. A gente comea a perder a, diz o empresrio e dono de equipe Amir Nasr, tio de Felipe Nasser, o nico talento nacional que, como piloto de testes da Williams, bate s portas da Frmula 1. Os europeus correm e voltam para a casa onde moram com os pais, estudam. O brasileiro l fora abre mo de tudo e fica dividido. Por isso  importante ter categoria de base para o rapaz se formar como piloto e como pessoa aqui. A trajetria de Felipe Fraga serve de exemplo. Pentacampeo de kart no Brasil, ele rumou para a Europa para correr de Frmula Renault. Na Frana, aos 15 anos, passou a dividir uma casa com dois pilotos. No adiantava eu correr um ano de Frmula 3 no Brasil, porque o carro  antigo e o nvel dos pilotos l fora  melhor, diz. Mas os caras que estreavam na Europa estavam com dois anos de treino  minha frente. Ento, samos muito atrs. O paraense ficou um ano no Exterior, investiu R$ 1,2 milho na temporada, concluda por ele na sexta colocao. Hoje, aos 18, corre na Stock Car, categoria de turismo que est salvando o automobilismo nacional, com quatro ex-pilotos de Frmula 1 em suas fileiras, mas sem tradio como formadora de novos nomes.

Neto de Emerson, Pietro Fittipaldi fez apenas uma corrida de kart no Brasil. Sua formao foi realizada nos Estados Unidos, onde mora, e correu na Nascar. Aos 17 anos, ele est na Frmula 4 Renault europeia. J o filho de Nelson Piquet, Pedro, de 15, preferiu passar pela Frmula 3 Brasil. Para o bicampeo Emerson, deveria haver, depois do kart, uma categoria de turismo e outra frmula de baixo custo. So necessrias para dar chance de surgir talentos sem poder aquisitivo, diz ele. Quanto mais pessoas competindo, maior a chance de sarem bons pilotos.  da quantidade que se extrai qualidade. Hoje, apesar dos esforos da Confederao Brasileira de Automobilismo em turbinar a participao no kart, h cerca de 30% menos carros perfilados no grid dessa categoria que h dez anos. Mais: no ano passado, o campeonato de Frmula 3 Brasil terminou a temporada com oito carros, metade dos que iniciaram.

A Argentina poderia servir de exemplo para o Brasil. L, uma poltica de incentivo fiscal faz com que as montadoras destinem um percentual do faturamento para o desenvolvimento do esporte a motor. Por aqui, segue a procura por um novo Ayrton Senna. Essa presso colocou contra a parede uma gerao talentosa  Rubens Barrichello, Cristiano da Matta e Felipe Massa, s para citar trs pilotos  que no conseguiu quebrar o jejum de ttulo brasileiro na Frmula 1, que j dura 23 anos desde que Senna conquistou o tri, em 1991.  com essa presso que muitos jovens comeam a acelerar. Ficamos 24 anos sem um Mundial no futebol esperando um novo Pel. No vai haver um prximo Ayrton Senna, diz Nasser.
